Café sem açúcar

De frente, sou um homem mediano. De perfil, depende do olhar que é direcionado a mim.

Apesar de já ter sido advertido sobre chegar atrasado no trabalho, persisto no erro de aproximar-me demais do espelho, todas as manhãs. Não que haja algo interessante para olhar, ao contrário, quanto mais percebo minhas feições, menos conhecido tenho a sensação de me tornar, e acabo me vendo em tantas faces no mesmo dia, que no topor insônico da madrugada, tenho a sensação de ter perdido meu rosto.

Aos 37 anos, sinto que a cota de pessoas bem sucedidas da minha geração foi atingida e eu continuo falando como se fosse chegar lá, mas vivo consciente do quão mediano decidi ser. Não que isso me atinja de alguma forma, mas para aqueles que encontro, eventualmente, no bar às sextas, demonstrar satisfação com a vida que levo, é o mesmo que cavar a própria cova e morar nela. Não que houvesse grandes expectativas para mim. E se houveram, morreram ainda na minha juventude asmática.

Na caminhada de 16 minutos para o trabalho, enquanto desvio dos paralelepípedos soltos e ensopados pela chuva, fico pensando se deveria estar ‘alguma coisa’. Casado, com filhos, divorciado, com filhos e sem minha casa, que agora pertence a minha ex mulher, doente a beira da morte, decrépito e desistente sumário da vida, morto. Não estou em nenhum desses lugares.

E isso parece significar nada.

Pelo louvor ao hábito, paro no café a caminho do trabalho, peço o expresso duplo, com leite desnatado, canela e adoço o suficiente para ter diabetes antes dos 50. Congelo. Pelos breves 10 segundos de interação com uma mulher de voz e olhos cativantes, que perguntou se eu poderia alcançar um guardanapo de papel. Engasgado pela sua beleza, adornada pelos cabelos escuros que caem leves, na altura dos seios, aceno que sim com a cabeça e entrego em suas mãos aveludadas duas embalagens fechadas de guardanapos. Ela esboça um breve sorriso e diz: obrigada, se vira e sai pela porta do café, levando toda a minha atenção com ela. Enquanto sigo o movimento de suas pernas, percebo que não sou o único olhando, esperando que ela tenha esquecido algo e volte correndo, ofegante e com o corpo balançando nos lugares certos.

Todos voltam às suas atividades quando percebem que não vai acontecer.

Apesar de estar conformado com a vida, detesto a falta de coragem que tenho e a facilidade com que meu corpo irrompe em espasmos lúdicos, quando me sinto tensionado sexualmente. Agora, gostaria de ter dito algo, para que ela pudesse reconhecer a minha voz, caso a ouvisse novamente, isso na esperança dela ser uma dessas pessoas que têm boa memória auditiva. Se tiver boa memória fotográfica, deve me reconhecer amanhã, caso apareça outra vez no café.

Gostaria de saber se o destino opera favores, mesmo certo de que não faria nenhum para mim.

Pensamentos fluem enquanto caminho o que falta em direção ao edifício que me emprega. Essa voz, que lembra a minha, mas parece insatisfeita com todas as minhas escolhas, já listou no mínimo 10 maneiras de iniciar uma conversa, para cada situação em que eu venha a encontrá-la novamente e o fez vigiada pela outra voz, que tem certeza que nenhuma das situações jamais acontecerá. Fico entre ambas, como uma criança que vê os pais brigarem, mas está preocupada com a chaleira de água fervendo, pois parece já ter fervido demais e deve haver um limite para o quanto a água pode ferver.

Me pergunto uma segunda vez, se o destino opera favores. Ao adentrar o edifício a vejo esperando o elevador. Preciso falar com ela, preciso que ela saiba que existo. Me aproximo casualmente, e faço a pergunta mais redundante possível: está subindo? Meu olhar deve ter entregado o quão estupido me achei, pois não existe nenhum andar abaixo de nós. Ela desperta de uma breve distração, e responde em um tom entre o cordial e o irônico, enquanto inclina a cabeça: bom, espero que sim. Eu sorrio, sem graça e ela devolve um sorriso e olhar curioso. Não sei mais o que dizer, e todas as vozes desapareceram da minha cabeça.

É ela que interrompe o silêncio, já dentro do elevador e segurando a porta: você não vem? Desperto para o presente e me coloco ao seu lado na caixa de metal. O botão do seu andar já está apertado, é a cobertura, o meu é 3 andares abaixo, mas não tenho coragem para me mover.

Outra vez, ela rompe o silêncio.

Que coincidência, você me alcançou o guardanapo e agora estamos no mesmo elevador.

Pois é, coisa do destino mesmo. Respondo, deixando vazar ansiedade no meu timbre de voz.

Você acredita em destino? Ela me pergunta, como se estivesse realmente interessada.

Não sei se deveria, mas acho que sim. Essa resposta foi um pouco melhor.

Interessante. Ela respondeu, um pouco pausadamente, enquanto me examinou dos pés à cabeça.

O silêncio retorna e já estamos quase no fim da subida. Quando num rompante, que mesmo eu não esperava, pergunto: gostaria de almoçar comigo hoje?

Ela pensa por um instante e dá a resposta mais inesperada possível: sim.

Combinamos de nos encontrar às 12 horas, em um restaurante nas redondezas.

Vivo toda aquela manhã com medo de pronunciar os breves momentos que vivi ao lado dela, como se fossem evaporar no tempo e deixar de existir. Procuro não pensar no encontro que está por vir, pois por auto análise, já sei que tudo que permito ter muito espaço em minha mente, acaba se tornando um desastre, fora dela.

Os minutos parecem horas e meu corpo inquieto, revela uma mente em erupção.

Saio mais cedo, para ter certeza que poderei escolher a nossa mesa. Não muito escondida, mas também não diante do restaurante todo. Pois apesar de eu ser completamente mediano, ela é absolutamente exuberante. E agora que consegui, tenho que garantir que a terei apenas para mim.

Quanto ela entra, procurando algo familiar, mal posso acreditar que é ao fitar meu rosto que ela sorri e começa a caminhar. Levanto para cumprimentá-la e nos sentamos ao mesmo tempo, de frente um para o outro.  Durante o almoço descobri que além de linda, possui uma personalidade encantadora. É curiosa sem ser intrometida, faz piadas na medida certa, discorre de assuntos como economia internacional e o campeonato brasileiro com a mesma facilidade. Parece ter caminhado o suficiente por todos os tópicos de conversa que sou capaz de levantar, nenhum assunto fica vazio de um comentário que me faz querer mais e mais. Veio a trabalho para a cidade, e deve permanecer por duas semanas hospedada em um hotel próximo de nós, essa é uma informação relevante, porém me esforço para não me apegar a ela.

Terminamos de comer. Paguei a conta, depois de insistir que ela não se preocupasse, pois o convite havia sido meu. Já do lado de fora do restaurante, ela pergunta: é imprescindível que você volte para o trabalho hoje?

Paro por alguns segundos.

Como assim?

Você não gostaria de ir até o meu hotel? Ela diz, com o olhar repousado em mim.

Com você? Devo ter soado infantil.

De preferência. Ela responde com a risada de quem acha a cena cômica.

Pode ser.

Caminhamos juntos, sob uma garoa fina até o hotel.

Entre comentários dispersos sobre obviedades e olhares meus demorados demais, penso comigo se o destino opera favores.

Chegamos ao quarto, ela me oferece uma toalha pequena para secar as gotículas acumuladas no cabelo e rosto. Tira o sobretudo cinza, revelando um corpo desenhado pelo vestido verde que havia por baixo. Sentou-se na cama, cruzou as pernas e fez sinal com a cabeça para que eu a acompanhasse.

Parece indelicado ou apenas estranho se eu não a beijar, então pergunto se posso e ela diz que sim. Logo tudo se torna intenso, aqueles minutos para entender o ritmo do outro, trazendo ele para o seu ou cedendo ao dele não existem. Logo eu estou encostado na cabeceira, com ela sobre o meu colo. Sua pele macia em atrito com a minha parece uma blasfêmia angelical. Ela tira o vestido e posso tocar e apertar seus seios e coxas com as mãos e a boca. Gostaria de descrever a minha destreza em satisfazê-la, mas é ela que tem total controle sobre mim, me sinto hipnotizado.

Sua boca quente percorre todo o meu corpo, deixando rastros de saliva e marcas leves de dentes. Ela desce até a minha virilha, virando os olhos para mim, na intenção de saber quando ela pode parar, ao mesmo tempo que parece querer que não acabe. Ela sobe novamente em mim, e começa a movimentar o corpo suavemente para frente e para trás. Nos seus olhos eu vejo prazer, mas também algo que eu não sou capaz de decifrar. Estou quase no limite, ela percebe e acelera o ritmo.

Subitamente para, estica seu corpo sobre o meu e alcança um objeto brilhante dentro da gaveta na cômoda ao lado da cama. Volta seus olhos para mim, me beija intensamente e continuando.

Estou prestes a gozar e a vejo levantar a mão com o objeto brilhante. Trata-se de um punhal, do tamanho da mão dela, parece uma joia que adorna seus lindos dedos. Ela sorri para mim e desfere um golpe limpo na minha garganta, que faz jorrar sangue em todo o seu corpo, ela ri de satisfação, apertando os seios agora pintados de vermelho enquanto ainda cavalga sobre mim.

Comecei a sufocar no meu próprio sangue, ela aperta o corte com as mãos e o peso do copo. Encosta seu nariz no meu e diz: não é nada pessoal, não escolhi você, assim como não escolhi os que vieram antes de você. É o destino que os envia a mim. Se hoje você não morresse aqui, provavelmente seria atropelado por um ônibus na volta para casa.

Ela tira o peso do corpo do meu pescoço e beija minha boca afogada em sangue.

O destino deve operar favores para ela, penso.

A cena desaparece e tudo escurece.

2 comentários

  1. Btdg disse:

    Esse foi a lá Nelson Gonçalves, de arrepiar

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    1. Btdg disse:

      Opaaa!!! A lá Rodrigues. Kkkkkk me empolguei.

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