Te encontro amanhã

Acredito que poucas pessoas esperam o azar, como se espera um conhecido na estação do trem para ir a algum lugar. Geralmente, somos surpreendidos, desolados, guiados ao mal estar interior, afastados do ordinário.

Ontem, Amélia estava dividindo com pessoas no Instagram sobre a decoração do quarto da sua irmã mais nova e no dia anterior, sobre o quanto estava ansiosa para o início das aulas na universidade que sempre sonhou. Hoje, ao rever as publicações ela vomitou, num impulso de tristeza e desespero, como se o seu corpo não soubesse mais o que fazer para expressar a angústia pulsante dentro de si.

*

Quando Dora começou a sentir as primeiras contrações, se assustou.

Ainda é muito cedo – disse olhando para o esposo – precisamos ir para o hospital.

Não seriam apenas contrações de treino? – perguntou, com um olhar preocupado, mas sem querer aumentar a tensão.

Tem algo diferente, não sei explicar… – Dora respondeu

Ele assentiu com a cabeça e foi em direção ao quarto de Amélia.

Sua mãe não está muito bem, vamos ao hospital, você pode vir para ficar de olho na Antônia? 

Claro que sim! – respondeu Amélia, prontamente – mas o que está acontecendo?

Vamos, que no caminho ela te explica melhor.

*

Nas horas seguintes, tudo passou muito lentamente. Dora foi prontamente atendida e levada para a maternidade do hospital, acompanhada do marido. Amélia ficou distraindo Antônia com copos descartáveis, até ela adormecer em seu colo. Depois de horas de espera, ela já tinha produzido todas as possibilidades para o momento em que alguma notícia chegasse, mas se forçava a não acreditar em nenhuma das ruins. 

Quando Marcos atravessou a porta da ala para pacientes, ela soube assim que seus olhares se cruzaram. Ela apertou a irmã que dormia em seus braços em um abraço que ela gostaria que nunca terminasse. O pai se aproximou do lugar em que as duas estavam, se ajoelhou diante delas, as abraçou e começou a chorar.

O tempo se torna relativo em momentos de dor, apenas cinco minutos tinham se passado, mas Amélia viveu todos os momentos de que se lembrava com a sua mãe, desde a primeira memória no aniversário de três anos, até a mais recente em que ela pediu com os olhos verdes brilhantes e um sorriso infantil, para que ela fizesse o pudim de natal para a sobremesa do domingo.

Uma mulher encerrou aquele momento com um toque no ombro do Marcos.

Senhor, podemos conversar? – disse a médica, com uma voz carregada de acalento e pezar. Mas ele não se moveu. Amélia afrouxou o abraço na irmã e voltou seus olhos cheios de lágrimas para a doutora, encontrou nela uma expressão que dizia: sinto muito. Pediu para o pai segurar a irmã e ele o fez sentado no chão. Ela levantou e pediu para que a médica conversasse com ela.

Bom, como você já tem 18 anos, e seu pai não está em condições… venha comigo. – Ela guiou Amélia até um quarto, e dentro dele havia uma incubadora, com a sua pequena irmã prematura.

Ela está bem, – disse a médica – apesar de ter nascido prematuramente, não apresenta nada fora do esperado, e acredito que assim que completados os 9 meses com a suplementação adequada, poderá ir para casa, sem nenhuma sequela.

Os olhos de Amélia se encheram de lágrimas. Achou que tinha perdido as duas. Ela não sabia se era alívio ou apenas amor, mas assim que viu a pequena Ana, sentiu que ela e sua família teriam algo para seguir em frente.

*

Os dias que se seguiram foram intensos.

Uma informação, ouvida de canto, por Amélia no velório de sua mãe a capturou permanentemente: “coitadinha da maior, agora é órfã de pai e mãe”. Ela nem tinha parado para pensar no assunto, pois como perdeu o pai nos primeiros meses de vida e tem Marcos na sua memória desde que se entende por gente, não sentiu essa primeira perda. Entretanto, agora com a cabeça encostada na janela do ônibus, no caminho do primeiro dia de aula, ela repete em transe para si mesma: eu sou órfã de mãe e pai. Eu sou órfã de mãe e pai?

Por alguns dias Amélia esqueceu que passaria a frequentar o mesmo espaço que antigos colegas de turma. Pessoas, como sempre descreveu, com um nível de repugnância acima do normal. Ela estudou a vida toda no melhor colégio da cidade, mas sempre com bolsa de estudos, para a faculdade o mesmo, por isso demorou um ano a mais para começar. Via de regra, medicina é um dos vestibulares mais concorridos e ela não tinha conseguido entrar de primeira, não com nota o suficiente para a bolsa integral que precisava, então com o apoio da família decidiu tentar mais uma vez, no ano seguinte. E lá estava ela, a caminho de um sonho que naquele momento não parecia em nada com o que gostaria que fosse.

*

Amélia… – sussurrou Marcos atrás da porta – sei que você não quer ver ninguém, mas tem algo que sua mãe preparou para o seu primeiro dia de aula e acho que ela iria gosta que eu te entregasse… vou deixar na sua porta, quando sentir que está tudo bem, é só abrir e pegar… e se precisar de algo estarei aqui para você, como sempre estive… eu te amo filha.

Ela ouviu ele deixando algo no chão e se afastando lentamente. Queria agradecer e dizer que o amava, mas ao mesmo tempo não queria mais ter que pronunciar palavras, enquanto estivesse viva.

Deitada no chão do quarto escuro se perguntava se era errado não conseguir mais chorar, era o sexto dia, depois do hospital e não sabia mais distinguir seus sentimentos, esquecia de dormir, comer e, às vezes, de respirar. Com o passar do tempo acabou adormecendo, entre suspiros e cansaço, ali mesmo e acordou com a sua irmã mais nova correndo pela casa, viu a sombra da caixa pela fresta da porta e resolveu que estava tudo bem.

Quando tentou levantá-la, se surpreendeu com o peso e então achou melhor arrastar a caixa para dentro, acendeu a luz, respirou fundo e a abriu.

A primeira coisa que viu foi uma carta escrita a mão pela mãe, seus olhos encheram de lágrimas instantaneamente, então preferiu deixar a leitura para depois. Embaixo dela uma mochila verde clara, que tinham visto em um site juntas, meses antes, mas decidido não comprar, pois era desnecessariamente cara. E sob a mochila todos os livros que a faculdade recomendava para os primeiros anos de curso, algo que ela já tinha desistido de comprar, pelo preço, pelo peso, pela quantidade, mas principalmente pelo preço.

Amélia queria brigar com a mãe, dizer que ela não deveria ter feito isso, que era um dinheiro que eles poderiam usar em algo para casa ou toda a família. E sabe que ela riria muito alto e falaria que nada a impediria de presentear a filha. Dora sempre foi uma mulher de grandes gestos e algumas decisões impulsivas, e isso fez Amélia ser o completo oposto ou era o que ela achava sobre si mesma.

Depois de rir e chorar enquanto explorava as coisas na caixa, voltou sua atenção para a carta, procurou o óculos na cama e sentou-se para ler.

“Mel, ainda lembro do dia que descobri que estava grávida de você. Era o último semestre da faculdade e terminei de escrever o meu TCC com você chutando os livros que eu apoiava na barriga. Achava que tinha tudo sob controle, seu pai me amava e tinha o nosso futuro todo planejado, ele fez esse futuro acontecer todos os dias.

Me formei, você nasceu, nos casamos e sete meses depois ele se foi. Mentiria para você se dissesse que não passei os anos seguintes desejando o futuro que ele planejou para nós. É tão difícil perder o amor da sua vida, quando você ainda o ama.

Acho que a partir daí você conhece a história, pois estava lá, me dizendo para não exagerar nas suas festas de aniversário. Nós encontramos um bom pai para você, ou melhor, você o encontrou sozinha, né? Vou sempre ser grata pela sua afeição com animais. Você fez de um passeio de domingo no parque, o meu primeiro encontro com o Marcos, pois encontrou no nosso querido e agora velhinho Pepo, uma companhia mais interessante que a das outras crianças.

Sua luz sempre te guiou para as pessoas e lugares certos, de um jeito que não sei explicar. Por isso tenho certeza que você vai saber o que fazer, mesmo quando se sentir perdida. E você vai, infelizmente, não posso te proteger disso. Confie no seu sentimento sobre as situações e as pessoas, como você sempre fez, e tudo vai encontrar um lugar para pertencer, assim como nos encontramos uma na outra.

Não adianta brigar comigo por causa dos presentes. Seu futuro será lindo e vou te amar para sempre.

Beijos da melhor mãe do mundo, Dora.”

Continua…

1 Comentário

  1. Btdg disse:

    Nesse eu chorei.

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