era uma vez uma madrugada

Deveria ser só mais uma madrugada, entretanto acordei do sono profundo com asas batendo no forro do quarto. Não dei importância, deve ser só mais uma mariposa grande e tonta.

Minutos depois o barulho cessou e voltei minha atenção para o sono, que é interrompido novamente por uma estranha sensação, tocando a lateral do meu rosto.

Mesmo desconhecidos percebem a estranheza da minha relação com o toque. A destreza em evitar alguns, a insistência por obter outros, o deleite por sensações na pele, simples, mas capazes de mudar a minha relação com o dia ou alguém.

Como posso descrever algo que experimentei pela primeira vez e provavelmente pela última? Era um toque macio, levemente aveludado e frio. Não me senti ameaçada, eu poderia deixá-lo ali por mais tempo, mas o impulso da repulsa, pelo estranho familiar, foi mais ágil do que a minha afeição por certos tipos de toque.

Passei a mão no rosto e ele voou novamente pelo quarto, assustado. Sentei na cama, tentando entender o alvoroço e percebi que ainda estava escuro, acendi a luz e procurei por alguns minutos o que seria esse batedor de asas que estava deitado sobre o meu rosto minutos antes.

Agora de pé o enxergo escondido sob as asas, no chão, sem mover um músculo. Um pequeno morcego, fugindo da luz, como um bebe brincando de esconder.

Sonolenta demais, para reagir a situação como eu faria normalmente, abro a cortina para ver se a janela está aberta, e nesse exato momento uma pequena perereca pula para o vidro e entra pela fresta.

Ainda com muito sono e questionando o acaso e a minha sanidade, olho para o lado e vejo a perereca indo em direção a minha irmã, me vem o seguinte pensamento: se ela acordar com isso pulando nela, vamos ter pela frente uns 20 anos de terror noturno. Qual a atitude sensata a tomar?

Ei, acorda…

Aan? O que?

Acorda… vamos, é sério!

O que foi?

Pega a seu travesseiro e coberta a gente vai lá pra sala…

Por quê?

Depois eu te conto, vamos…

Descemos a escada de madeira tentando fazer o mínimo de barulho possível, deitamos cada uma em um sofá e terminamos a noite por ali.

O que aconteceu?

Tinha um morcego e uma pererequinha no nosso quarto.

Ela arregala os olhos, deita e dorme. Dando pouca importância ao que pareceu um delírio de nós duas ou só meu?

Sim, é isso.

Se você achou que eu ia beijar um morcego e um sapo na mesma noite, achou errado (risos e lágrimas de desespero).

Espero que essa noite as ninfas da floresta fiquem por lá.

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