sul

Meu corpo é vácuo.

Quando isso apareceu? Onde é esse espaço? Uma brecha de luz vem de cima, fria, fraca e se não fosse tudo escuridão, seria imperceptível. Olhar guiado, um impulso voluntário da sobrevivência, levado ao seu destino, a luz no fim. Corro dela ou para ela. Mas permanece imóvel paralela a mim.

É sem dúvida fantasmagórica a presença do fim, tem cabelos âmbar, tão longos quanto os braços, olhos que vagam e está atrás de barras, ou eu estou? É melhor duvidar dos pensamentos.

            Onde é esse espaço? Sempre perguntam isso. Perguntam? Sim, isso. Como você chegou aqui? Não sei, uma hora lá e na outra estava aqui e nunca mais os vi. Como você se chama? Sul, esse não é meu nome, mas é como me chamo. Sul.

            Como vim parar aqui? Ai já não tem como saber, eu sou eu, você não. Mas você caiu.

            Estão sempre caindo. Você também caiu? Não, eu cheguei. Como se chega? Como sempre, você está indo e uma hora chega. Chega? Sim, chega. Não entendo. Ah, eu também não, porém é fato que quem chega não pode ir, mas quem cai, sempre vai. Vai?

            A quanto tempo chegou? Lembrar lembro, mas não existe mais tempo, então não sei. Devia me lembrar como cai. Talvez, lembro como cheguei. Lembra? Sim. Como?

            Bom, ia indo sem parar, e tive a impressão de dormir, mas continuei indo… Finalmente chegou. Eu morri? Não. Como? As vezes acontece, alguém precisa de Sul, então outro alguém se torna Sul. Não escolhi, apenas fui indo.

Não é verdade, pensou várias vezes em parar, nós vimos, ser Sul foi maior e então chegou. E quem sou, minha casa? Estão lá. Eles vão lembrar? Se quiser sim, pode escolher, agora é Sul.

            O que escolheu? Vi tristeza, escolhi não lembrar, desde logo estão felizes. Mas e Sul? Sul é quem escolhi ser enquanto caminhava. Não parece certo! O que deveria parecer?

            Disse que muitos caem. Sim, sempre. E então? O de sempre. Sempre? É, como agora, as mesmas coisas, sempre. Entendo. Bom. E sempre termina igual? Não sei, nunca vejo o fim, sou Sul. Você se importa? Sinto que devo, só não é o que faço.

            Parece triste. Não tem tristeza aqui. Não? É, aqui só tem Sul. Você? Sim, e você! Eu não sou sul. Não é, eu sou. O que significa? Ser Sul? Sim.

Significa,

lembrar

            Me disseram… agora é Sul, veio aqui para lembrar, conhece toda a dor e alegria no mundo, você lembra tudo, lembra todos, tudo que já passou é você, é Sul. Desde então, lembro o mundo.

            E como é? É muito. Penso que sim. Mas e eu Sul, por que cai? Talvez, tenha algo que eu possa lembrar.

Sul parece o fim.

*

Dói, minha bochecha contra algo, o chão, meu corpo no chão, cheiro de madeira e saliva. É frio. Sentado, meu corpo pesa o dobro, puxando para a parede algo pende em meu braço esquerdo, coração acelerando, acelerando, acelerado. Mão carregada, indicador engatilhado, polegar destravado. Eu caí?

*

É isso, eu caí? Isso já era claro. Tem razão.

Já estou de pé? Não, está aqui. Pareço estar bem. Olhando daqui, parece mesmo.

Mas e agora?

*

Tem tempo, não o vejo em casa feliz assim! A vida tem me feito isso, não todos os dias, seria bem impossível, mas tem feito. Tão bom, obrigada por partilhar vida comigo.

*

Sabe, não lembro isso. Você não significa lembrar. Mas nem faz sentido, não conheço essas pessoas. Faz sentido, você não conhece todos, eu sim. Como isso poderia ser lembrar?

*

Um guarda chuva vermelho que não protegeria minha cabeça vai correndo, olha para trás, dança, sorri, fala coisas que não sei ouvir.

*

Como isso poderia ser lembrar? Sul? Como isso poderia ser lembrar?

*

“Lembrar lembro, mas não existe mais tempo, então não sei.” Desde então, ela é a parte de mim.

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