modo não perturbe

Nos últimos anos se iniciou uma grande corrida na internet, onde o prêmio mais desejado é a sua atenção.

O que muitos criadores de conteúdo não contam, é que somos dois lados da mesma moeda, uma hora estamos procurando criar com criatividade, autenticidade e qualidade, pensando no objetivo da marca para qual trabalhamos ou no nosso. No outro somos mais um endereço de IP que fornece dados para o algoritmo de todas as ferramentas que usamos.

Seguimos exaustos e no limite, eliminando tudo que nos faz querer gritar, da timeline, seja por cansaço ou excesso. Isso quando podemos desviar nosso olhar das mídias sociais, afinal de contas um dos grandes requisitos para se trabalhar em algumas agências é ser ‘heavy user’. Meus amigos, sinceramente… não dá. A verdade é que querem a nossa atenção também.

Como diz o ditado: quem procura acha

No caso, nem procurei, só estava emanando a energia para o universo e ele respondeu.

Depois de passar um bom tempo longe da internet, como um todo, meio irritada, bem cansada e desanimada com tudo, vazia de esperanças criativas, deixando de seguir todos os produtores de conteúdo que conhecia, por não aguentar mais a quantidade de informação, me deparei com algo que não esperava. Uma chamada para apoiar o livro: Uma conversa de Presente, da Suellen Coutinho. Na proposta do projeto, ela traduzia um pouco dos pensamentos que estavam ecoando na minha mente. Percebi que não estava sozinha.

Pra começar, a Sue levanta uma bandeira que me ganhou logo de cara: a internet é grandona. Sim, maior que o Instagram, Facebook e TikTok. Depois ela me fez lembrar que dá pra fazer muita coisa legal nesse espaço, algo que eu já tinha esquecido. Por último, ela não tem medo de dizer que: não existe fórmula mágica. Pronto, foram esses três pontos que me fizeram conhecer e querer acompanhar a Sue. Ela ganhou a minha atenção.

Sociedade & Cansada: dupla sertaneja do momento

Mesmo com esse alento recém chegado, tínhamos os fatos. Olhava para mim, e estava cansada. Jogava Among Us com os amigos universitários, todos cansados e ali apenas pelo prazer de ser o impostor. Fazia chamada de vídeo, com pessoas queridas, e adivinha: exaustas e surtando. Pessoas perdendo pessoas para um vírus e o descaso. O resumo da ópera parece irrecuperável.

Nada mudou (a não ser que Among Us, não é mais o jogo do momento). Não tem fórmula mágica, os dias são processos irrecuperáveis, e vários deles dão ruim. Aparentemente é isso que compõe a jornada. Têm coisas no parágrafo anterior longe do nosso alcance, e isso entristece. Cansamos de ouvir: e tá tudo bem. Não está.

Estamos emocionalmente, fisicamente e psicologicamente cansados. Descansamos assistindo Netflix. Encontre o erro.

Precisamos de uma nova forma de vida, uma nova narrativa, donde possa surgir uma nova época, um outro tempo vital, uma forma de vida que nos resgate da estagnação espasmódica.

(Byung-Chul Han in Sociedade do cansaço)

Não nos permitimos descansar de verdade, estamos a todo momento procurando algo que afaste a nossa mente do presente e principalmente do real. Calma! Isso não é uma bronca, pois se fosse, seria para mim mesma, receba como um convite para pensar e criar teorias mirabolantes.

Ao recuperar Walter Benjamin, Byung-Chul Han propõem que, o tédio profundo é essencial para o processo criativo, que por sua vez é indispensável para o nosso bem estar. Assim ele sugere que, “se o sono perfaz o ponto alto do descanso físico, o tédio profundo constitui o ponto alto do descanso espiritual”.

Lembrei desse trecho do livro com uma cena do filme, The Sound of Metal. O protagonista é convidado a ficar todos os dias, sentado e sozinho, procurando um estado contemplativo de paz. O personagem passa boa parte do filme sem entender o significado daquelas horas.

Por que dar um tempo ocioso a minha mente se posso adiantar algo, assistir uma série ou aprender outra habilidade nova? Em 2021 é preferível passar horas rolando o feed, consumindo 200 conteúdos de 30 segundos e vivendo no Brasil, é perfeitamente compreensível. Só que isso está exaurindo a nossa mente.

São esses estímulos “anestesiadores” da realidade, que nos tiram do agora, mas em troca roubam a profundidade das relações, com o outro e nós mesmos e isso nos adoece.

Cantemos uma ode ao tédio.

Slow Content, a viagem é agora

Bonito isso, muito bonito mesmo! Mas e os boletos, quem paga? – disse meu sol em virgem.

A grande complicação em ler livros filosóficos é que além de doídos eles pintam ideais belíssimos, e nos deixam passando vontade. Depois que a reflexão se aloja e você tem uma visão um pouco mais macro da situação, precisa encerrar a subida à torre de marfim e escorregar pelo corrimão direto para o boleto que vence dia 15, de todo santo mês.

Trabalhar com internet é um fardo e uma benção. Tem dias que as relações que criei, exclusivamente, aqui me carregam até o próximo cantar do galo. Mas em outros, isso não é suficiente, pois o modelo de troca em que vivemos é o capitalista, o algoritmo é capitalista, e ele está querendo sempre mais, mesmo que não exista mais o que oferecer.

Quando enxerguei a possibilidade de fazer o que gosto, sem necessariamente ceder a essa querência das ferramentas, abracei como se fossemos amigas de longa data e fui. Nesse horizonte, a possibilidade que se abriu foi o Slow Content, que é isso mesmo ‘conteúdo lento’. Não a toa “devagar e sempre” é uma das minhas bandeiras e o nome da minha playlist de trabalho.

A verdade é que encontrei um nome para o que eu já queria fazer, e por que um nome é importante? Porque significa, que não é só(zinho).

O Slow Content é um movimento sem fórmula, mas que tem um site, caso você queira entender o que significa. Ele preza pela qualidade do conteúdo que é produzido e não, necessariamente, a quantidade. Também sugere que reflitamos sobre o que consumimos na internet. E procura, principalmente, respeitar o tempo do criador. No macro, ele se relaciona ao movimento slow, em geral, talvez você já tenha ouvido falar de termos como: slow food, slow fashion ou slow living. É muito pano pra manga, mas não vamos falar sobre isso hoje.

Para onde vamos?

Visualizando o cenário, percebo que nós, reles mortais, estamos diante de: algumas escolhas, vários é o que tem e i$$o não vai dar agora. Não dá pra ficar romantizando nem as faltas, nem os excessos. Cavamos a rota pra fora do poço e, as vezes, acabamos em outro, quando saímos dele: nem tá tão bonito aqui fora. E não é ser pessimista, é entender que os limites já foram ultrapassados faz tempo e estamos por aí, tentando com o melhor que temos.

Mas fica triste não, já conhecemos a rota de fuga, é que o capital é muito perspicaz mesmo. Você não está sozinha/e/o nessa exaustão, e a gente juntinho vai levando, até encontrar a brecha pra arrombar a porta e revolucionar o rolê.

Desejo a você muito tédio, poucos itens no ‘to do list’, menos descanso assistindo série e mais horas olhando pro nada e pensando em tudo.

Fique bem e segura/e/o.

Referências

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2015.

COUTINHO, Suellen. Uma conversa de presente. São Paulo: Edição da Autora, 2021.

ABREU, Leandro. Slow content: entenda o movimento e confira dicas para colocá-lo em prática. Rockcontent, 2021. Disponível em: https://rockcontent.com/br/blog/slow-content/. Acesso em: 15, Abril de 2021.

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